A Coragem de Não Agradar, de Kishimi e Koga — O Que Diz Adler, a Separação de Tarefas e o Que Merece Cuidado na Leitura
A Coragem de Não Agradar, de Kishimi e Koga (Sextante): Adler, separação de tarefas, para quem serve e o que merece cuidado na leitura.
A Coragem de Não Agradar é um livro para quem passou a vida tentando ser aprovado e começa a desconfiar do preço disso. Escrito pelo filósofo japonês Ichiro Kishimi e pelo escritor Fumitake Koga, e publicado no Brasil pela Sextante, com tradução de Ivo Korytowski e 272 páginas, ele apresenta as ideias do psiquiatra austríaco Alfred Adler por meio de um diálogo, ao longo de cinco noites, entre um jovem insatisfeito e um filósofo que o desafia. Tem nota média de 4,7 e mais de 18 mil avaliações na Amazon, e a própria editora fala em mais de 3 milhões de exemplares vendidos no Brasil. O formato de conversa faz o livro correr, e a graça está em ver o jovem resistir a cada ideia, como o leitor faria.
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Quem Foi Adler e o Que Ele Propõe
Alfred Adler foi um contemporâneo de Freud e de Jung, e criou a chamada psicologia individual, que parte da ideia de que o comportamento humano tem finalidade: em vez de perguntar apenas o que no passado causou determinado sintoma, Adler pergunta para que ele serve na vida da pessoa. O livro de Kishimi e Koga é uma leitura em chave adleriana, que se desdobra em alguns conceitos centrais. O primeiro é a rejeição da explicação pelo trauma: na versão do filósofo, o que molda a pessoa é o sentido que ela dá às experiências, e não o acontecimento em si. O segundo é o sentimento de inferioridade, tratado como estímulo universal de crescimento, desde que não vire desculpa. O terceiro é o sentimento de comunidade, a ideia de que a felicidade passa por contribuir para os outros.
A Separação de Tarefas
A ideia mais lembrada do livro é a separação de tarefas: toda pergunta de relacionamento pode ser reduzida à pergunta de quem é a tarefa. Se a consequência de uma escolha recai sobre mim, a tarefa é minha; se recai sobre o outro, é dele, e eu não devo interferir nem permitir que interfiram na minha. Isso inclui a opinião alheia: o que os outros pensam de mim é tarefa deles, não minha. A proposta tem alcance prático em situações comuns, como a cobrança de pais, a necessidade de ser aprovado no trabalho ou a tentação de controlar a vida de um filho, e é por isso que o livro foi tão comentado. A ideia vem acompanhada de uma ressalva importante, que é a de que separar tarefas não significa desinteresse: o diálogo insiste que o objetivo é uma cooperação mais honesta.
Uma Lente: o Ator e a Plateia
Quem trabalha com teatro conhece uma versão desta lição. A tarefa do ator é preparar o papel, estar presente e dizer o texto com verdade; a reação da plateia (aplauso, silêncio, bocejo) pertence a ela. O ator que entra em cena preocupado com o que cada espectador vai pensar atua pior, porque sua atenção sai do palco. A comparação não esgota o livro, mas explica por que a separação de tarefas libera: devolve o foco ao que a pessoa pode realmente fazer.
O Que Merece Cuidado na Leitura
Um livro de ampla circulação precisa ser lido com discernimento. O primeiro ponto é a negação do trauma. A tese de que o passado não determina o presente é uma posição da corrente adleriana, e ajuda a pensar na liberdade de escolha, mas ela entra em tensão com a pesquisa e a prática clínica sobre trauma, que mostram como experiências de violência e abandono podem deixar marcas profundas. Quem viveu situações assim não deve ler essa passagem como julgamento de si mesmo, nem como cobrança para "superar" por força de vontade. O segundo ponto é o tom: o filósofo é por vezes categórico, e o formato de diálogo o deixa sempre vencer a discussão. O terceiro é que se trata de um livro de divulgação, que não substitui acompanhamento psicológico, especialmente em casos de ansiedade, depressão ou relações abusivas. Se o sofrimento incluir pensamentos de acabar com a própria vida, o CVV atende pelo 188, gratuitamente e a qualquer hora (cvv.org.br).
Para Quem Esta Leitura Faz Sentido
Serve a quem tem dificuldade em dizer não, a quem se cobra por agradar todos, a quem convive com comparação e inveja e a quem se interessa por Adler. Quem gostou do tema pode seguir para a continuação, A Coragem de Ser Feliz, dos mesmos autores. Para o lado da vulnerabilidade, veja A Coragem de Ser Imperfeito; para o diálogo com a filosofia sobre liberdade e responsabilidade, os conceitos de Sartre.
Qual Edição Escolher
A edição da Sextante (272 páginas, tradução de Ivo Korytowski) é a de referência no Brasil, e a única necessária para a primeira leitura. A sequência, A Coragem de Ser Feliz, funciona melhor depois.
Perguntas Frequentes
A Coragem de Não Agradar é autoajuda?
É vendido nessa prateleira, mas apresenta ideias de uma corrente de psicologia, em formato de diálogo filosófico, e não oferece técnicas passo a passo.
Preciso conhecer Adler antes?
Não. O livro apresenta as ideias de forma gradual.
É verdade que o trauma não existe?
É a posição defendida no livro, na linha adleriana. A psicologia clínica contemporânea reconhece o impacto do trauma, e as duas visões não são facilmente conciliadas; leia como uma perspectiva, não como verdade única.
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